O S——- do Lula Molusco

O S------- do Lula Molusco. (Reprodução: Youtube)
(Reprodução: Youtube)

Para começar, quero logo dizer que, se você espera uma resposta no final, prepare-se para se decepcionar. Não existe uma.

Em 2005, fiz um estágio de um ano no Nickelodeon Studios como parte da minha graduação em animação. Não era remunerado, é claro — a maioria dos estágios não é —, mas oferecia uma vantagem que ia além do aprendizado. Para os adultos, talvez não parecesse grande coisa, mas a maioria das crianças daquela época ficaria louca com isso.

Como eu trabalhava diretamente com os editores e animadores, tinha a chance de ver episódios inéditos dias antes de irem ao ar.

Vou direto ao ponto, sem muitos detalhes desnecessários: eles tinham acabado de produzir o filme do Bob Esponja. Toda a equipe estava com a criatividade meio esgotada, então demoraram mais para começar a nova temporada. Mas o atraso se prolongou por motivos mais perturbadores. Houve um problema com a estreia da quarta temporada que atrasou tudo e a todos em vários meses.

Eu e outros dois estagiários estávamos na sala de edição, junto com os animadores principais e os editores de som, acompanhando a montagem final de um episódio. Recebemos a cópia do que deveria ser o episódio “Fear of a Krabby Patty” (Medo de um Hambúrguer de Siri) e nos reunimos em volta da tela para assistir.

Bem, como a “montagem final” ainda não é definitiva, os animadores costumam colocar uma cartela de título provisória no início. É uma espécie de piada interna nossa, usando títulos falsos e muitas vezes obscenos — como “Como o Sexo Não Funciona” em vez de “Rock-a-Bye-Bivalve” (Nana-neném Bivalve), episódio em que Bob Esponja e Patrick adotam uma vieira. Nada particularmente engraçado, apenas risadas típicas do ambiente de trabalho.

Então, quando vimos a cartela com o título “Squidward’s Suicide” (O Suicídio do Lula Molusco), não pensamos que fosse nada além de uma piada mórbida. Um dos outros estagiários até soltou uma risadinha abafada.

O episódio começou com aquela música alegre e despreocupada tocando normalmente. A história se iniciava com Lula Molusco praticando clarinete e errando algumas notas, como de costume. Ouvimos Bob Esponja rindo lá fora. Lula Molusco para e grita para ele fazer menos barulho, pois tem um concerto naquela noite e precisa ensaiar. Bob Esponja concorda e vai visitar a Sandy com o Patrick. A tela de transição com bolhas aparece, e vemos o final do concerto do Lula Molusco. Foi aí que as coisas começaram a parecer estranhas.

Durante a execução, alguns quadros se repetem, mas o som não. O áudio deveria estar sincronizado com a animação, então, sim, isso não é comum. Mas, quando o Lula Molusco para de tocar, o som cessa, como se a falha na reprodução nunca tivesse ocorrido.

Há um leve murmúrio na plateia antes de começarem a vaiá-lo. Não são as vaias típicas de desenho animado comuns na série; dava para ouvir claramente uma intenção maliciosa nelas. O Lula Molusco aparece em close e parece visivelmente assustado. A câmera muda para a plateia, com o Bob Esponja no centro do quadro — ele também está vaiando, o que é algo muito atípico para ele. No entanto, isso não é o mais estranho. O que chama a atenção é que todos têm olhos hiper-realistas. Todos muito detalhados. Claramente não são imagens de olhos de pessoas reais, mas algo um pouco mais real do que CGI. As pupilas eram vermelhas. Alguns de nós nos entreolhamos, obviamente confusos, mas, como não éramos os roteiristas, ainda não questionamos se aquilo seria adequado para crianças.

A cena muda para o Lula Molusco sentado na beira da cama, com um ar de profunda desolação. A vista pela janela em formato de escotilha mostra um céu noturno, indicando que não se passou muito tempo desde o concerto. O mais perturbador é que, nesse momento, não há som algum. Literalmente nenhum som. Nem mesmo o ruído de fundo das caixas de som do ambiente. É como se os alto-falantes estivessem desligados, embora o status indicasse que funcionavam perfeitamente.

O Lula Molusco permanece sentado naquele silêncio, piscando os olhos, por cerca de 30 segundos, e então começa a soluçar baixinho. Ele cobre os olhos com as mãos (tentáculos) e chora silenciosamente por mais um minuto inteiro. Durante todo esse tempo, um som de fundo cresce muito gradualmente, indo do silêncio absoluto para algo quase imperceptível. Soa como uma brisa leve soprando em uma floresta.

A imagem começa a dar um zoom lento no rosto dele. Quando digo “lento”, quero dizer que a mudança só é perceptível se você comparar, lado a lado, quadros com um intervalo de 10 segundos entre eles. O soluço dele vai ficando mais alto, carregado de mágoa e raiva. A tela então tremula um pouco, como se se retorcesse sobre si mesma por uma fração de segundo, antes de voltar ao normal. O som de vento entre as árvores torna-se mais alto e intenso, como se uma tempestade estivesse se formando em algum lugar. O mais inquietante é que esse som, assim como os soluços do Lula Molusco, pareciam reais. Era como se não viessem dos alto-falantes, mas como se os próprios alto-falantes fossem aberturas pelas quais o som viajava vindo do outro lado. Por melhor que seja a qualidade sonora que o estúdio costuma oferecer, eles não possuem equipamentos capazes de produzir áudio com esse nível de fidelidade.

Por baixo do som do vento e dos soluços, audível apenas de forma muito tênue, ouvia-se algo que parecia uma risada. O som surgia em intervalos irregulares e nunca durava mais de um segundo, tornando difícil identificá-lo com precisão (assistimos a esse “episódio” duas vezes; peço desculpas se os detalhes parecem excessivos, mas tive tempo para refletir sobre eles). Após 30 segundos disso, a imagem na tela ficou borrada e tremulou violentamente, e algo surgiu rapidamente, como se um único quadro tivesse sido substituído.

O editor-chefe de animação pausou e retrocedeu quadro a quadro. O que vimos foi horrível. Era uma foto estática de uma criança morta. Ela não devia ter mais de seis anos. Seu rosto estava dilacerado e ensanguentado, com um dos olhos pendendo para fora da órbita. A criança estava seminua, apenas de roupa íntima; o abdômen havia sido aberto de forma grosseira, e as vísceras estavam espalhadas ao lado do corpo. Ela estava deitada sobre uma superfície pavimentada, provavelmente uma estrada.

O mais perturbador era a presença da sombra do fotógrafo, mas sem qualquer fita de isolamento da cena do crime, etiquetas de evidência ou marcadores; além disso, o ângulo da foto era totalmente inadequado para uma imagem destinada a servir como prova. Dava a impressão de que quem tirou a foto era o responsável pela morte da criança. Ficamos, é claro, horrorizados, mas continuamos, na esperança de que tudo não passasse de uma brincadeira de mau gosto.

A imagem voltou para o Lula Molusco, que continuava soluçando — agora mais alto do que antes — com apenas metade do corpo enquadrada. Via-se, então, o que parecia ser sangue escorrendo de seus olhos pelo rosto. O sangue também fora desenhado em um estilo hiper-realista, dando a impressão de que, se você tocasse a tela, ele sujaria seus dedos. O som do vento agora lembrava uma ventania forte soprando pela floresta; ouviam-se até estalos, como de galhos quebrando. A risada, um som grave de barítono, durava mais tempo e surgia com maior frequência. Após cerca de 20 segundos, a imagem novamente se distorceu e exibiu uma foto de um único quadro.

O editor relutou em voltar a imagem. Todos nós relutamos, mas ele sabia que precisava fazê-lo. Dessa vez, a foto parecia ser de uma menina, com idade semelhante à da primeira criança. Ela estava deitada de bruços, com suas presilhas de cabelo caídas em uma poça de sangue ao lado do corpo. O olho esquerdo dela estava danificado da mesma forma que o do menino, e ela estava nua, exceto pela calcinha. Suas vísceras estavam amontoadas sobre ela, acima de outro corte grosseiro ao longo de suas costas. Novamente, o corpo estava na rua e a sombra do fotógrafo era visível, muito semelhante em tamanho e forma à da primeira foto. Tive que segurar o vômito, e uma estagiária, a única mulher na sala, saiu correndo. A exibição continuou.

Cerca de 5 segundos após a exibição dessa segunda foto, Lula Molusco ficou em silêncio. Todo o som cessou, assim como quando a cena começou. Ele abaixou os tentáculos, e seus olhos agora estavam desenhados em hiper-realismo, como os dos outros personagens no início do episódio. Eles sangravam, estavam injetados de sangue e pulsavam. Ele apenas encarava a tela, como se observasse quem assistia. Após cerca de 10 segundos, começou a soluçar, desta vez sem cobrir os olhos. O som era estridente e alto; o mais aterrorizante de tudo era que seus soluços se misturavam a gritos.

Lágrimas e sangue escorriam profusamente pelo seu rosto. O som do vento voltou, assim como a risada de voz grave, desta vez acompanhada por uma imagem estática que durou uns bons 5 quadros.

O animador conseguiu pausar no quarto quadro e retrocedeu. Desta vez, a foto mostrava um menino de idade semelhante, mas a cena era diferente. Suas vísceras estavam sendo arrancadas do ferimento em seu estômago por uma mão grande; o olho direito havia saltado da órbita e pendia, com sangue escorrendo por ele. O animador prosseguiu. O quadro seguinte era diferente, mas não conseguíamos identificar como. Ele avançou para a próxima imagem e era a mesma coisa. Então, ele voltou à primeira e as exibiu mais rapidamente; foi aí que não aguentei mais. Vomitei no chão, enquanto os editores de animação e som ofegavam diante da tela. Aqueles 5 quadros não eram 5 fotos diferentes; eram quadros de um vídeo. Vimos a mão retirar lentamente as vísceras, vimos os olhos do garoto focarem nela e até vimos dois quadros do garoto começando a piscar.

O editor-chefe de som nos mandou parar; ele precisava chamar o criador para ver aquilo. O Sr. Hillenburg chegou em cerca de 15 minutos. Ele estava confuso sobre o motivo de ter sido chamado, então o editor simplesmente continuou o episódio. Assim que os quadros seguintes foram exibidos, todos os gritos e sons cessaram novamente. Lula Molusco estava apenas encarando o espectador, com o rosto ocupando toda a tela por cerca de 3 segundos. A câmera se afastou rapidamente, aquela voz grave disse “FAÇA ISSO!”, e vimos uma espingarda nas mãos de Lula Molusco.

Ele imediatamente coloca a arma na boca e puxa o gatilho. Sangue e massa encefálica realistas respingam na parede atrás dele e em sua cama, e ele é arremessado para trás com força. Os últimos 5 segundos do episódio mostram seu corpo na cama, de lado, com um olho pendurado no que restou de sua cabeça sobre o chão, encarando-o fixamente. Então, o episódio termina.

O Sr. Hillenburg ficou visivelmente irritado com aquilo. Ele exigiu saber que diabos estava acontecendo. A maioria das pessoas saiu da sala naquele momento, então restamos apenas alguns poucos para assistir àquilo novamente. Assistir ao episódio duas vezes só serviu para gravar cada detalhe dele na minha mente e me causar pesadelos horríveis. Arrependo-me de ter ficado.

A única teoria que conseguimos formular foi a de que o arquivo havia sido editado por alguém em algum ponto da cadeia de produção, desde o estúdio de animação até nós. O Diretor de Tecnologia foi chamado para descobrir quando isso havia ocorrido. A análise do arquivo revelou que ele havia sido mesclado com material novo. No entanto, o registro de data e hora da alteração indicava que ela ocorrera apenas 24 segundos antes de começarmos a assistir. Todos os equipamentos envolvidos foram examinados em busca de software ou hardware estranhos, bem como de falhas técnicas — como a possibilidade de o registro de horário estar incorreto —, mas tudo parecia estar em ordem. Não sabíamos o que havia acontecido e, até hoje, ninguém sabe.

Houve uma investigação devido à natureza das fotos, mas ela não levou a lugar algum. Nenhuma das crianças que apareciam nas imagens foi identificada, e não se obteve nenhuma pista a partir dos dados envolvidos ou das próprias fotos. Eu nunca havia acreditado em fenômenos inexplicáveis, mas agora que vivenciei algo assim — e não consigo provar nada além de relatos pessoais —, passei a ver as coisas de outra forma.

Créditos: u/SuicideSquidward

Gostou desse post?

Considere inscrever-se para receber atualizações de conteúdo, toda semana.

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Deixe um comentário

Comentários

Sem comentários.

    Deixe um comentário

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *