Hel: A deusa do mundo dos mortos na mitologia nórdica

Hel: A deusa do mundo dos mortos na mitologia nórdica. (Reprodução: wikingar.de)
(Reprodução: wikingar.de)

Poucas figuras da mitologia nórdica despertam tanto desconforto — e ao mesmo tempo tanta curiosidade — quanto Hel. Seu nome ecoa em palavras modernas como “hell” (inferno), mas reduzir sua essência a uma simples governante de um lugar sombrio é perder uma parte importante da complexidade dessa personagem. Hel não é apenas morte, punição ou escuridão. Ela é, acima de tudo, uma representação inevitável do destino humano.

Neste artigo, vamos além do básico. Em vez de apenas descrever quem Hel é, vamos explorar o que ela representa, como sua imagem evoluiu ao longo do tempo e por que ainda faz sentido falar sobre ela hoje.

Quem é Hel e qual é o seu papel na mitologia nórdica?

Hel é uma figura central na cosmologia nórdica, sendo a governante de Helheim, o reino dos mortos que não morreram em batalha. Filha de Loki e da gigante Angrboda, ela possui uma aparência marcante: metade de seu corpo é descrita como viva e bela, enquanto a outra metade é cadavérica e em decomposição.

Essa dualidade física não é apenas estética — ela simboliza o próprio limiar entre vida e morte. Hel não é simplesmente uma deusa “má”; ela é uma entidade que administra o destino daqueles que tiveram mortes consideradas comuns ou naturais, em contraste com os guerreiros levados a Valhalla.

Helheim, seu domínio, não deve ser confundido com um inferno de punição eterna. Ele é mais próximo de um lugar de repouso, embora frio, silencioso e distante da glória. É o destino mais provável para a maioria das pessoas — o que já diz muito sobre como os nórdicos enxergavam a morte.

Como Hel surgiu na tradição nórdica

A figura de Hel aparece principalmente em textos como a Edda Poética e a Edda em Prosa, compilados séculos após a era viking. Isso já levanta um ponto importante: o que sabemos sobre Hel é filtrado por autores cristãos, o que pode ter influenciado a forma como ela foi retratada.

Segundo os mitos, os deuses, ao perceberem o poder potencial dos filhos de Loki, decidiram separá-los. Hel foi enviada para governar o mundo dos mortos, onde recebeu autoridade total sobre aqueles que ali chegassem.

Esse exílio não é apenas uma punição — é também uma atribuição de função. Hel se torna uma peça essencial na ordem cósmica. Sem ela, não haveria equilíbrio entre os mundos.

Outro aspecto interessante é que o próprio nome “Hel” pode ter origem em uma raiz que significa “esconder” ou “cobrir”, reforçando a ideia de um lugar oculto, distante dos vivos.

Hel é deusa, gigante ou algo além disso?

Uma das discussões mais intrigantes sobre Hel é sua classificação. Ela é frequentemente chamada de deusa, mas tecnicamente isso não é tão simples.

Por ser filha de Loki (um deus) e Angrboda (uma gigante), Hel ocupa um espaço híbrido. Em muitas tradições nórdicas, essa mistura não é incomum — e talvez seja justamente isso que a torna tão simbólica.

Alguns estudiosos argumentam que chamá-la de deusa é mais uma convenção moderna do que uma categorização precisa. Outros defendem que, independentemente da origem, seu papel funcional como governante de um reino a coloca em um status divino.

Essa ambiguidade reforça um ponto importante: na mitologia nórdica, as fronteiras entre categorias não são rígidas. Hel não precisa caber perfeitamente em um rótulo para exercer seu papel.

Hel (1889), de Johannes Gehrts, retratada aqui com seu cão Garmr. (Reprodução: Wikipedia)
Hel (1889), de Johannes Gehrts, retratada aqui com seu cão Garmr. (Reprodução: Wikipedia)

Helheim: o reino dos mortos e seus significados

Helheim é um dos Nove Mundos da cosmologia nórdica e está localizado nas regiões mais profundas e frias do cosmos. Ao contrário de lugares como Asgard ou Midgard, Helheim não é vibrante ou heroico — ele é silencioso, sombrio e inevitável.

Mas é um erro interpretá-lo como um lugar de sofrimento constante. Para a maioria dos mortos, Helheim é simplesmente o destino final. Não há necessariamente tortura, mas há ausência — de luz, calor e movimento.

Essa visão é reveladora. Ela mostra que, para os nórdicos, a morte comum não era glorificada. A verdadeira honra estava na batalha, enquanto o restante da humanidade enfrentava um fim mais neutro, porém melancólico.

Ainda assim, Helheim cumpre um papel fundamental: ele mantém a ordem do cosmos. Sem ele, o ciclo da vida e da morte estaria incompleto.

Diferentes interpretações: de figura neutra a entidade temida

Ao longo do tempo, Hel foi reinterpretada de diversas maneiras. Em algumas leituras, ela é vista como uma guardiã justa, que apenas cumpre seu papel sem malícia. Em outras, especialmente sob influência cristã, ela passa a ser associada a conceitos de inferno e punição.

Essa transformação não é coincidência. Quando o cristianismo se expandiu pela Europa, houve uma tendência de reinterpretar figuras pagãs sob uma ótica moral mais rígida. Hel, com seu domínio sobre os mortos, foi uma candidata natural para essa adaptação.

No entanto, ao retornar às fontes mais antigas, fica claro que Hel não é uma vilã. Ela não julga almas com base em moralidade, nem recompensa ou pune. Ela simplesmente recebe.

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Essa neutralidade é, talvez, o aspecto mais desconcertante de Hel — e também o mais humano.

Hel e o Ragnarök: o papel no fim do mundo

Hel também desempenha um papel importante no Ragnarök, o evento apocalíptico da mitologia nórdica. Durante esse período, os mortos sob seu domínio são liberados e marcham contra os deuses.

Esse momento transforma Hel de administradora passiva em participante ativa do destino do cosmos. Ainda assim, sua ação não é motivada por vingança ou ambição, mas sim pelo desenrolar inevitável do destino.

Isso reforça uma ideia central da mitologia nórdica: o destino é inescapável, até mesmo para os deuses.

Hel não causa o Ragnarök — ela faz parte dele.

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