Berserkers: os guerreiros que desafiavam a dor e a morte

Guerreiros vikings em estado de fúria no campo de batalha. (Créditos: Lorado/via Getty Images)

Quando se pensa nos vikings, é comum imaginar guerreiros ferozes lutando em longas viagens pelo mar ou invadindo vilas e mosteiros. Entre esses combatentes, os berserkers se destacam como os mais temidos: homens que, segundo as sagas, entravam em um estado de fúria incontrolável, quase sobrenatural, durante as batalhas. Mas o que sabemos sobre eles além do mito?

Origens e contexto histórico

A Era Viking, geralmente datada entre 793 d.C., com o ataque ao mosteiro de Lindisfarne, e 1066 d.C., com a derrota de Harald Hardrada em Stamford Bridge, foi marcada por sociedades escandinavas descentralizadas. O poder estava concentrado em reis e chefes locais, que mantinham grupos de guerreiros leais — os chamados comitatus.

Hermann Armínio retorna da Batalha da Floresta de Teutoburgo contra a legião dos romanos comandada por Quintilius Varus. (Créditos: mikroman6/via GettyImages)
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Os berserkers surgiram nesse contexto como uma elite imprevisível e extremamente agressiva, atuando em batalhas como tropas de choque ou guardas pessoais de líderes, especialmente na Noruega e Dinamarca.

O termo berserker pode ser traduzido como “camisa de urso” ou “sem camisa”, o que reflete tanto a simbologia animal quanto a prática de lutar sem armadura. Além dos berserkers propriamente ditos, existiam os ulfhednar, ou “peles de lobo”, guerreiros associados ao lobo e à força animal.

Fontes literárias do século XII e XIII, como a Ynglinga Saga, Egils Saga e Hrólfssaga Kraka, descrevem esses homens como capazes de:

  • Entrar em um estado de fúria ritualizado (berserksgangr)
  • Ignorar ferimentos graves
  • Uivar, gritar ou morder seus escudos
  • Atacar ferozmente, muitas vezes sem formação militar organizada

Após a batalha, a exaustão era intensa, tanto física quanto mental.

Guerreiros vikings em uma floresta em campo de batalha no inverno. (Créditos: Lorado/via Getty Images)
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Fúria, ritual e simbolismo animal

Os berserkers tinham uma forte ligação com ursos e lobos, animais considerados símbolos de força e coragem. Vestir peles desses animais era um ritual que, segundo as sagas, ajudava o guerreiro a incorporar o espírito da fera.

Representações arqueológicas, como as placas de Torslund (século VII) ou peças de xadrez da Ilha de Lewis, mostram guerreiros mordendo escudos ou usando peles, reforçando a conexão simbólica e cultural desses combatentes.

Durante séculos, historiadores e estudiosos tentaram explicar o berserksgangr. Uma das primeiras teorias, do século XVIII, sugeria o uso de cogumelos alucinógenos (Amanita muscaria). Hoje, essa hipótese é amplamente descartada, pois os efeitos das substâncias seriam incompatíveis com a eficácia em combate.

A interpretação mais aceita atualmente é que os berserkers atingiam um estado de transe psicológico, induzido por rituais, cânticos e gestos repetitivos. Esse estado aumentaria a força muscular, reduziria a percepção da dor e diminuiria o medo, mas exigia grande gasto de energia, provocando exaustão extrema após o combate.

O fim da era berserker

Com a cristianização da Escandinávia, entre os séculos X e XI, práticas ligadas ao paganismo foram condenadas. Reis cristãos, como Olavo I da Noruega (r. 995–1000), e posteriormente Olavo II, começaram a criminalizar o comportamento berserker. Leis medievais da Noruega já registravam punições para aqueles que entrassem em fúria fora do contexto militar, marcando o declínio dessa tradição.

Apesar de sua aura lendária, evidências indicam que os berserkers eram guerreiros reais, mas em número limitado. As sagas, no entanto, amplificaram suas histórias, transformando-os em símbolos de masculinidade extrema, violência ritualizada e devoção a Odin.

Espada e armadura de viking derrotado em batalha. (Créditos: Lorado/via Getty Images)
(Créditos: Lorado/via Getty Images)

Paralelos culturais existem em outras regiões da Europa: Tácito, no século I d.C., descreveu guerreiros germânicos que lutavam sem armadura e desprezavam a morte, sugerindo uma tradição de guerreiro ritualizado presente desde cedo nas sociedades do norte da Europa.

Os berserkers combinam história, cultura e mito. Foram guerreiros reais, profundamente ligados a rituais, simbolismo animal e práticas pagãs, mas também se tornaram arquétipos literários da violência e coragem extremas. Estudá-los ajuda a compreender não apenas a guerra na Era Viking, mas também valores, crenças e transformações sociais de uma sociedade em transição do paganismo para o cristianismo.

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